Gran Torino - Clint Eastwood Gran Torino oferece um homem cuja mulher faleceu e se encontra sozinho na vida. Diga-se que é por culpa própria e, em particular, do seu péssimo feitio que insiste em insultar praticamente tudo que consegue falar. A juntar a um perfil, digamos, peculiar, temos um profundo orgulho pela pátria e consequente ódio perante outras raças. De referir que este homem, de seu nome Walt Kowalski, combateu bravamente na Guerra da Coreia em '52 tendo sido medalhado pelas suas acções corajosas e sobre-humanas. E claro, Gran Torino é a marca do seu carro de eleição que insiste em mantê-lo como novo, desde o momento da compra em '72. Mas e o que acontece quando os vizinhos de Walt são imigrantes do sudeste asiático e um deles lhe tenta roubar o seu carro de eleição? Ora, todos os ingredientes estavam preparados para termos uma fita explosiva. Pois, felizmente não tivemos. E é essa a primeira qualidade do filme de Eastwood. não cai em facilitismos e lugares comuns. Não temos um sénior em busca de vingança deixando um resto de sangue por onde passa. Temos sim, um homem marcado pela vida que vai afastando a sua família porque não se identifica com a "juventude" à medida que tenta lidar com os seus vizinhos. E claro, não poderiam faltar os comentários racistas e insultuosos que preenchem a parte cómica do filme. Contudo, Gran Torino acaba por ser uma excelente homenagem às tragédias gregas e aos contornos pesados que eles tomam. De resto, o esplendoroso e comovente final justifica isso mesmo. Aliás, todos os momentos que procedem o grande clímax apresentam um sentimento de redenção unificador que liga, ainda mais, Eastwood e a audiência. Fabuloso o trabalho do realizador/actor neste campo.
Mas a fita é toda ela uma grande metáfora para a vida, a morte e o significado de ambos. O melhor diálogo do filme surge na sequência do confronto entre Walt e o Father Janovic (Christopher Carley) onde esse paralelismo é discutido com um conjunto de palavras que fluem perfeitamente na boca de ambos os interveninentes. Afinal, como se pode saber o que é a vida e a morte? Só sabemos os sentimentos que eles transmitem. Sentimos totalmente díspares está claro. Aquando da vida, sentimo-nos vivos. Aquando da morte, sentimo-nos mortos. E isto é muito mais do que uma simples verdade Lapaliciana. Isto é uma atitude inegável e irrefutável. O conhecimento, aquele que verdadeiramente nos diz algo, provém das nossas exepriências de vida, do número de anos que já vivemos. Assim sendo, como podemos saber o que é a vida? Alguém se lembra de nascer? De não existir e, de respente, sorrir para o mundo? Ou ainda, alguém lembrar-se-á de morrer? Poderá alguém afirmar que sabe o que é morrer clarificando veementemente que deixou a vida? As opiniões alheias são fiáveis até que ponto? Tudo isto é demosntrado com grande classe em um diálogo curto, mas fabuloso. Este ponto fica ainda mais vincado com o início da fita onde temos a morte da mulher de Walt e o nascimento de uma criança na casa ao lado, dos "tais" vizinhos. Vida e morte lado a lado. Impressionante.
Contudo, Gran Torino não se fica por aqui. Aquilo que parece estar mascarado de crítica ao racismo é muito mais do que isso. Temos, e este tema tem aparecido muito ultimamente neste espaço (curioso...), um extenuante apontar de dedo à decadência da juventude. A liberdade foi substituida pela libertinagem, temos jovens extremamente intolerantes, violentos, mal educados, que não dão valor à vida e não mostram respeito àqueles que merecem. Mas, sobretudo, temos uma juventude que não quer aprender. Prefere andar "aos tiros" em vez de se cultivar e contribuir positivamente para o desenvolvimento da sociedade. Dizia Durkheim, há uns anos atrás, que factos sociais são modos de pensar, sentir e agir governados por forças sociais. Bem, se as nossas forças sociais influenciam os jovens à decadência, temo severamente o futuro. Esta mensagem transparece e dá-nos um murro no estômago. Lá para o meio do filme, quando certos eventos se sucedem, só me apeteceu dizer "Filhos da Puta". Ou melhor, disse para mim mesmo. Mas sabia-me bem tê-lo proferido a alto e bom som. Relativamente às interpretações temos um Eastwood a um excelente nível, como sempre de resto. Não considero a sua performance oscar worthy mas mostra que realmente sabe actuar. Confesso que a única objecção que coloca ao seu trabalho está relacionado com os grunhidos que vai soltando durante o filme. Depois há Chris Carley que se mostra competente aquando do seu papel. Contudo, a grande falha do filme, e o que o impede de ser detentor de uma nota mais elevada, e mesmo o restante cast secundário onde temos interpretações abixao média, algumas más, que prejudicam a visualização. E tendo em conta que estou a referir as falhas da fita, poderei ainda mencionar que o ritmo lento (apesar de ter sido uma excelente escolha) não se enquadra com o filme em todos os momentos. De resto, estamos perante um trabalho perfeito, seja ao nível de realização, produção, fotografia ou montagem.
Por fim, no ecrã sobressai ainda um interessantíssimo conflito entre duas culturas tradicionais e conservadoras cujos valores devem se manter imaculados independentemente da situação. Depois, claro, como seria possível não destacar o fabuloso veículo que dá nome ao filme? Sendo eu um apaixonado pelos grandes clássicos, foi com grande prazer que observei um carro tão distinto na companhia de tamanha classe. E apesar do veículo não aparecer recorrentemente no ecrã é detentor de um grande simbolismo, nomeadamente, no que toca ao patriotismo e ao amor por uma cultura que fica também evidente em diversos momentos do filme. De mim, Gran Torino leva o 9 em 10 ou as quatro estrelas (e meia) em cinco possíveis. De que é que estão à espera? Go see it.