Robert Rauschenberg - Impressionismo Fotográfico Robert Rauschenberg
Impressionismo Fotográfico
Autor Tiago Cartageno
A fotografia é uma componente fulcral no trabalho artístico de Robert Rauschenberg. Este utiliza-a, não como a maior parte dos fotógrafos o faz, através da individualidade de um “frame” captado, valendo este por si só aos olhos de quem o contempla, mas sim através da associação indiciária entre vários frames, construindo assim uma linha metafórica coerente. Esta coerência conceptual, que descobrimos ao observarmos as suas obras, não é de maneira alguma o âmago da sua obra, pois esta não depende inteiramente de um conceito num único sentido puramente racional e tautológico, com a pretensão de romper com o que entendemos como arte, como se tornou tanto em voga a partir da década de 60, mas sim servindo como a linha de condução em que se apoia o nosso entendimento sobre a obra, de maneira a podermos divagar, mais ou menos controladamente pela composição, sem nos perdermos, nem fantasiarmos só conclusões puramente abstractas. Rauschenberg consegue comunicar verdadeiramente com as suas obras. Consegue dizer-nos, “o Paraíso está à tua frente, agora encontra-o”.
A primeira vez que vi um quadro de Rauschenberg foi numa projecção de slides onde apareceu “State”. Juntamente com esta obra foram projectados “slides” de outras obras de outros artistas. Tudo obras tipicamente frias e conceptuais da década de 60. No meio delas, eu reparei que houve uma que me impressionou pelos fragmentos de cor e de composições fotográficas, aparentemente caóticas. Essa impressão causada na retina remete de certa forma esta obra para uma corrente artística que influenciou bastante a maneira como percepciono o que me rodeia, estou a falar do Impressionismo. De certa forma, consegui estabelecer uma relação muito forte entre esta corrente artística e a obra de Rauschenberg, isto, porque nas duas situações, no primeiro contacto que o observador tem com a obra, existe a apreensão de uma expressão criativa que provém em última análise da emoção artística da pura contemplação e observação da realidade, do “agora”. Tal como os pintores impressionistas trabalhavam a tinta, Rauschenberg trabalhava com a fotografia e com outros materiais deixando-se levar pela força da intuição.
A abordagem de Rauschenberg à fotografia é bastante característica, nomeadamente no que diz respeito à ideia de perfeição. Enquanto que na maior parte dos casos é realizada uma aproximação de índole técnica, com base numa pretensão estética de carácter perfeccionista, Rauschenberg parece estar em sintonia com a ordem natural das coisas.
Na entrevista conduzida por Alain Sayag em 1981, Rauschenberg afirmou que “ If by perfect photography one means maximum of contrast, lights and darks and extreme focus, then I don´t necessarily desire a perfect photography” ; mais à frente, ele acaba por dizer claramente “So perfection is not one of the goals because it´s a dead end” . Com estas afirmações é notória a atitude de curiosidade e de exploração criativa demonstrada pelo artista, em nunca trilhar os mesmos caminhos para alcançar o principal dos objectivos: a criação.
É como se o que realmente interessasse na criação fosse a viagem em si, e a maneira como o artista a experiencia. Tatyana Grosman confirmou esta ideia com a sua declaração,” With Rauschenberg to work with is something heroic. There is always a conquest, a subduing of something unexpected. Always some new discovery”. (2)
Reflectindo nisto, podemos concluir que o método de trabalho seguido por Rauschenberg torna-se totalmente intuitivo, e a sua conceptualização não é realizada tanto “a priori” como se de um planeamento se tratasse, mas sim através da sua aplicação no momento do acto criativo, como se conceptualização e intuição estivessem equilibradas de uma só vez, em sintonia, para fazer arte.
Rauschenberg parece ter perfeita noção de que não tem o controlo completo sobre o que faz, e nem tenciona sequer tê-lo, pois desta maneira o trabalho irá ser realizado mediante uma “pallete” enorme de possibilidades, tornando-o mais interessante do ponto de vista hipotético.
Na entrevista publicada por Barbara Rose em 1987, Rauschenberg falou detalhadamente sobre as suas ideias estéticas, seus pontos de vista e intenções no que diz respeito à criação artística, e, de uma maneira concisa, ele afirmou: “ Art shouldn´t have a concept. That´s the only concept that I´ve ever been consistent with”.
Para Rauschenberg a criação artística é algo que não faz sentido questionar. Com o seu trabalho, ele pretende dar respostas e não questionar o processo, estando essas respostas na experiência intuitiva que vai acumulando ao longo do tempo. Este tipo de atitude remete-nos para uma frase de Watts citada no livro de Umberto Eco, “Obra Aberta”, onde “Watts cita o exemplo do monge que, ao discípulo que o interrogava sobre o significado das coisas, responde levantando o próprio cajado; o discípulo explica com muita subtileza teológica o significado do gesto, mas o monge discorda por a sua explicação ser demasiado complexa. O discípulo pergunta então qual é a explicação exacta do gesto. O monge responde levantando de novo o cajado”
A maneira mais saudável de encararmos a arte parece ser desta maneira. Não são apenas os génios que encontram. Ou melhor, talvez os únicos génios são aqueles que decidiram começar a encontrar, e escrevo “decidiram”, pois isso é algo que só depende da vontade humana, que é completamente possível de ser alargada e de superar os seus moldes, por si mesma. Isso está bem claro na definição etimológica da palavra “arte” dada por Marcel Duchamp no seu livro “Engenheiro do tempo perdido”, em que ele nos afirma que esta palavra provém do sânscrito e que significa, muito simplesmente, “fazer”.