Forrest Gump - Uma crítica pelo amor á vida Uma crítica pelo amor à vida
“(...) consagração definitiva de Tom Hanks como actor de primeiro plano (...) um daqueles filmes dificílimos e improváveis que acabam por contrariar, nas bilheteiras, as previsões catastróficas dos analistas do mercado. Zemeckis teve que lutar para o fazer. O resultado? Uma obra-prima!”. Foram estas palavras de Jorge Leitão Ramos, colaborador do jornal “Expresso”, que me intrigaram e incitaram a minha curiosidade durante muito tempo e são estas palavras que reconheço como uma verdade absoluta e inconfundível. “Forrest Gump” personifica na perfeição o poder do cinema no seu estado mais puro. Mostra porque a sétima arte é considerada a indústria dos sonhos e o porquê de tanto inspirar e até mudar a vida de um indivíduo. Uma coisa que eu gosto nesta indústria prende-se com o facto de que, apesar de grande parte das histórias contadas partirem da criatividade do argumentista, são inspiradas por casos verídicos e são esses que nos dão esperança, quer seja pela utopia de um mundo melhor, pela injecção de força de vontade que nos incute um sentimento de “amanhã vou acordar e tudo vais ser diferente” ou simplesmente porque nos faz navegar pelo mundo do pensamento durante horas a fio, que de resto, pode levar, e originalmente o faz, às duas primeiras considerações. “Forrest Gump” é simplicidade em um mundo complexo, é carisma que subsiste à falsidade e aos interesses externos, é ternura em tempo de guerra, é amor quando ele não existe, é o eterno poder do bem face ao mal, é a inocência desprotegida e descomprometida, enfim, é vida desde o seu começo. Estamos perante uma lição de vida intemporal e incomensurável que deveria servir de exemplo a cada um de nós à medida que faz cinema dotado de pureza cristalina. A verdade é que este filme mereceu ser um vencedor e merece que o continue a ser.
Quando visualizei, há uns tempos atrás, “The Shawshank Redemption” não percebi, em qualquer instância, como é que “Forrest Gump”, uma película cuja trama me parecia um tanto ou quanto absurda e dotada de um actor por quem não detinha grande apreço, poderia ter derrubado o supra na cerimónia dos Óscares de 1995. Até à data de visualização da vida de Gump, essa interrogação mantinha-se uma incógnita até que, finalmente, pude confrontar aquele que, à partida, iria ser trucidado face ao gosto que detenho pela jornada de redenção, liberdade e amizade que é “The Shawshank Redemption”. Parece que, relativamente ao mundo cinematográfico, nunca estive tão errado. Tudo parece tão claro. Se é verdade que agora aceito claramente que qualquer um dos dois poderia ter, facilmente, adquirido a estatueta, também é verdade que consigo entender, na perfeição, o porquê desta fita ter conquistado o coração de tantos cinéfilos (e não só) por esse mundo fora. É verdadeiramente tocante a honestidade emanada por um projecto tão pequeno mas maior que inúmeros outros, seja a nível de qualidade ou simplesmente no que toca ao empenho por parte de cada um dos intervenientes.
E por falar em intervenientes, a primeira pessoa que vem à cabeça de qualquer energúmeno terá que ser Tom Hanks, muito graças a uma interpretação genial e imaculada. Como já supracitei, nunca fui fã do actor mas devo admitir que me conquistou por completo com este papel fabuloso e inteiramente merecedor do Óscar de Melhor Actor com que foi galardoado. O seu empenho, a sua dedicação, o seu talento e todas as restantes qualidades são de louvar. Só posso agradecer a John Travolta, Chevy Chase e a tantos outros por terem rejeitado o papel. Mas não posso ser injusto já que outras actuações são igualmente notáveis. Gary Sinise, por exemplo, é uma delas interpretando um tenente de guerra irado com os contornos a que a sua vida se sujeitou. O actor norte-americano revela a sua versatilidade nos vários momentos distintos em que partilha o ecrã com Hanks. Também Robin Wright Penn no papel de Jenny, a eterna amiga de Forrest, é estonteante mostrando que a beleza não é um mero artifício neste fogo de emoções. Sally Field é apenas dez anos mais velha que Hanks mas aqui interpreta a sua mãe. E que bem que o faz. O restante cast está ao nível de uma película vencedora.
Também sinto-me na necessidade de agradecer a Terry Gilliam por ter rejeitado a oportunidade de realizar esta fita. Tem sérias dúvidas que pudesse fazer desta fita um marco inesquecível, precisamente como Robert Zemeckis o fez. A sua realização é em tudo agradável, simples e explicitamente conectada com o espírito emanado pela longa-metragem, isto é, de honestidade e puros intuitos cinematográficos. Mas na verdade, o grande trunfo de “Forrest Gump” acaba por ser o soberbo argumento escrito por Eric Roth. Se algum dia conseguisse escrever um assim, sentir-me-ia, certamente, realizado. É dotado de muita inteligência, engenho, articulação, coesão e de pormenores fenomenais. Outro aspecto que me cativou de melhor forma possível foi, sem qualquer dúvida, a banda-sonora que é, no mínimo, majestosa. Temos “The Doors” (seis música para se mais explícito), “The Byrds”, “Simon and Garfunkel”, B. J. Thomas”, “The Mammas and the Pappas”, “Elvis Presley”, “Bob Dylan” (três faixas), “Aretha Franklin”, “Jimi Hendrix”, “The Youngbloods”, “The Supremes”, “Lynard Skynard” e muitos outros. Há coisas fantásticas não há? Posso mesmo afirmar que é uma das melhores, se não a melhor, compilação de faixas que uma fita já nos ofereceu em cinema. Outros pormenores como a fotografia, os cenários ou a caracterização são extremamente agradáveis e ajudam a criar o ambiente proposto.
Em suma, “Forrest Gump” arrebata-nos pela sua inocência. É um filme que faz sonhar, reflectir e que pode dar aso a um amor pelo cinema e pelo significado e importância que este contém. Tanto pode ser uma boa fita para se ver quando se está feliz ou triste, já que as emoções que transmitem servem os propósitos em ambas as ocasiões. O 10 em 10 ou as cinco estrelas em tantas possíveis) adequa-se perfeitamente à qualidade da fita. Para ver e deixar que a arte do cinema nos domine.
A frase
“Run, Forrest. Run”